segunda-feira, 30 de maio de 2011

A Firma (cap. 1)

Getúlio

Era o primeiro dia de Cássio na firma. Havia sido empurrado de setor em setor. Finalmente, chegou à sala de Getúlio.

Getúlio era um homem baixo, gordo, barbudo de óculos quadrado. Olhou para Cássio e sorriu.
- Teu primeiro dia aqui, guri?
- Aham. - Confirmou o rapaz.
- Pega uma cadeira ali e senta do lado da minha mesa. Vou te mostrar como deveriam funcionar as coisas aqui.

Cássio se sentou e aprendeu com Getúlio algumas das funções do sistema da empresa, via rede integrada de computadores. Alguns minutos de explicação, e Getúlio já havia largado o computador nas mãos de Cássio. O meio-dia chegou, e Getúlio vinha com piada:
- Guri, vai almoçar! Não vai me dizer que gostou de trabalhar!
Cássio estranhou, mas saiu com um sorriso simpático, meio sem jeito.

Cássio almoçou em um restaurante barato, daqueles com buffet livre, mas com carne era mais caro. Fez o sinal da cruz e deu as primeiras garfadas. Tempos dificeis. Ele sabia que, por um bom tempo, o negócio seria sentir pouco peso no garfo... até o salário chegar.

Mais tarde, na sala de Getúlio, Cássio chegou e viu uma bela moça pegando alguns papéis na mesa ao lado da de Getúlio. A moça saiu, Getúlio com olhos arregalados. Disse alguma gracinha, mas baixo demais para qualquer outra pessoa ouvir. Cotovelada em Cássio:
- Queria que essa aí estagiasse lá em casa...
Cássio, por outro lado, sentiu que a moça estivera ali pouco à vontade. E voltou ao trabalho, na mesa de Getúlio.

No meio da tarde, Inocêncio chegou.
- Esse é o chefe do setor! - disse Getúlio - E agora que ele tá aí, vou ao banheiro. E nem sei se volto.
Depois disso, Getúlio saiu, não andando, mas quase correndo. Cássio olhou para Inocêncio, um homem grisalho, vestindo um casaco preto e usando sapatos marrons.

- Tu é daqui mesmo? - Disse em tom firme, Inocêncio.
- Não... me mudei pra casa de uma tia, na vila perto da cidade.
- Fica fácil vir?
- Fica.
- Vamos ali na frente. Vou te contar como as coisas são aqui.

Cássio e inocêncio foram até "a frente", era uma portinhola na parte da frente da firma, mas ficava bem à parte. Ali, Inocêncio acendeu um cigarro e começou a falar.
- Olha, o Getúlio é um chato, é asqueiroso, e eu estou louco pra mandar ele pra puta que o pariu. Mas ele tem padrinho na firma. E ele sabe fazer algumas coisas que eu nunca entendi. Por isso, quero que tu grude nele igual carrapato! Aprende tudo que ele faz e eu vou arranjar um lugar pra ele na China.
Cássio consentiu.

Voltaram, e nada de Getúlio. Inocêncio explicou que Getúlio era filho de um militar aposentado. E que eram da família de sobrenome Vargas. Em homenagem ao antigo presidente, Getúlio ganhou esse nome. Mas disse também que Getúlio era o oposto do pai, e o oposto do presidente também. Nenhum heroísmo... nenhuma história de glória. Getúlio finalmente voltou. E as lições voltaram.

Cássio progrediu muito. Aprendia, às vezes com facilidade, às vezes com paciência, pois Getúlio fazia brincadeiras desagradáveis. As estagiárias, a moça da limpeza, e demais funcionárias da firma evitavam a mesa de Getúlio. Ele cantava todas elas, sem a menor chance de sucesso. Gerava repugnância, muitas vezes generalizada. Cássio chegou a pensar que ele era apenas um incompreendido, mas o tempo provou que essa possibilidade era descartável. E a descartou.

Um mês se passou. Chegou o dia. Inocêncio atendeu o telefone:
- Alô? Sim! (pausa) Sim! (pausa) Sim, já tenho alguém pra fazer isso, sim.
Inocêncio desligou.
- Quem era? - Perguntou Getúlio.
- Nosso chefe! - respondeu Inocêncio - E ele quer que tu passe na mesa dele pra ele te dar novas ordens.

Getúlio levantou-se irritado.
- Cássio, cuida de tudo aí. O Júlio não pode fazer nada sem mim! Tá louco! Em 18 anos de firma... O dia em que eu deixar a firma, tudo quebra!
- Ah, sim! - Interrompeu Inocêncio - Tu diz que tem 18 anos de firma, mas tem 18 anos de banheiro na firma, que não é a mesma coisa.
Getúlio subiu as escadas ainda mais irritado. Cássio continuou o que estava fazendo.

Minutos depois, Getúlio desceu. Chegou na mesa e disse quase gritando:
- Te some! Preciso da mesa!
Cássio saiu da mesa, até assustado.
- Que foi, Getúlio? Alguma novidade? - Disse Inocêncio com um certo cinismo.
- Tu é um filho duma puta, mesmo! Que facada nas costas!
- Facada nas costas tu me fez nesses 18 anos de banheiro! Não deveria ter me subestimado desse jeito. Tu acha mesmo que é só tu que sabe operar o sistema externo?
- Esse guri! Tu tá usando ele contra mim! - gritou Getúlio apontando o dedo para Cássio.
Nisso, Inocêncio levantou-se de sua cadeira e pôs a mão no ombro de Cássio.
- Eu vou tocar fogo em tudo! - gritou Getúlio - Vou embora pra filial, nisso tu ganhou! Mas eu vou ter onde trabalhar. E vocês dois não!
Depois disso, Getúlio saiu a passos largos.
- Cássio! - Chamou Inocêncio - Hoje tu fica com as chaves do escritório. Tranca tudo, e esse palhaço não vai ferrar ninguém.

No final daquela tarde, estavam uma estagiária e a moça da limpeza no escritório. Cássio terminava suas últimas tarefas na máquina de fotocópias, em outro setor. Getúlio chegou e escorou a porta. bateu a tranca, que só funcionava por dentro, pra reuniões no setor.
- Daqui vocês duas só saem daqui se me beijarem!
As duas se olharam, e tentaram não entrar em pânico.
- Tu tá louco, nojento? - foi a reação da estagiária.
- Louco, sim... - disse Getúlio com um sorriso maldoso. - Se quiserem se beijar primeiro, e depois virem até mim.
- Credo! - exclamou a estagiária.
E Cássio chegou. Bateu na porta. Getúlio, como se saísse de um transe, abriu a porta.
- Estávamos tendo algo a três aqui, Cássio! Quer participar da festinha? É minha festa de despedida!

As meninas praticamente sairam correndo do setor. Cássio entrou no escritório, e entendeu a situação que ali se passara.
- Tenho um presente de despedida pra ti. - disse Cássio. - Está na minha mochila.
Mais que depressa, Getúlio jogou a mochila nos braços de Cássio. Cássio virou-se de costas e abriu a mochila.
- Quer me dar? Vem em dar, então! - Getúlio dizia com humor malicioso.
Cássio fechou a mochila e pegou novamente um objeto que estava nela. Getúlio olhou:
- Um par de luvas de motoqueiro?
- Não... - respondeu Cássio - ...são luvas de proteção para prática de artes marciais.
- Se são pra mim, porque tu é quem tá colocando?
- Já te explico.

No dia seguinte, Getúlio não estava no setor, nem na filial. Parece que o RH recebeu um atestado dele. Ele alegou que teve um acidente de trabalho, caindo da escada, daí o afastamento. A moça da limpeza nunca havia limpado o setor tão cedo. Inocêncio chegou e a elogiou pelo serviço tão eficiente.

Ninguém soube de nada. E quem soube, nunca admitiu que soube.
Cássio continuou na firma, na função de Getúlio.

Um comentário:

  1. Hummm qualquer semelhança com a vida real e alguem.....rsrsr
    ASS NISA

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