Estação da Luz |
As noites de São Paulo tem esse quê de especial, era o que ele pensava enquanto caminhava para a plataforma. A noite havia sido boa e, apesar do relógio da estação ainda marcar nove horas, ela já estava acabando. Acordara tarde aquela manhã e fizera uma refeição solitária, depois precisou retomar o trabalho do dia anterior. Ao final da tarde, exausto, resolvera dar uma volta pela cidade. Havia encontrado alguns amigos no bar, sabia que sempre poderia encontrá-los lá, e depois de uma ou duas cervejas resolvera continuar seu passeio.
O trem aproximava-se vagarosamente da plataforma, trazia consigo a brisa morna da primavera. Ele cantarolava uma balada, entrou no trem e escolheu um lugar próximo à janela. Não tinha pressa e pelo visto o maquinista também não.
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Ela estava desolada. Como as coisas poderiam acabar assim? Nunca se entregara tanto a um relacionamento, sentia-se indefesa e encontrava-se longe de casa. Chorava copiosamente enquanto caminhava até a estação de trem, as pessoas que cruzavam seu caminho assemelhavam-se a autômatos com suas rotinas pré-programadas e mal notavam sua presença. Essa sensação de estranheza era acentuada pelo vislumbre da monstruosidade fria da megalópole, sentia toda a pressão da vida. Precisava racionalizar aquela situação, repetia consigo como que em transe quem era e como fora forte. Pensava nas diversas vezes que precisara ser forte pelos outros diante de tantas outras adversidades. No entanto agora estava ali, sozinha. Essa era sua mente tentando pegá-la numa armadilha, precisava manter o foco, chegar logo ao seu quarto, seu local seguro onde todas as dores escorreriam junto às lágrimas e iriam para bem longe. Havia feito uma escolha difícil mas estava feliz por ter conseguido apesar da tristeza que isso lhe causava. Respirou fundo e endireitou a postura, estava decidida a não parecer frágil.
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Enquanto aguardava seus olhos percorriam o vagão buscando detalhes, pequenos padrões que nos passam despercebidos no cotidiano. As pessoas organizavam-se como moléculas de gás, comprimiam-se pelas portas separando-se logo depois. Sentando o mais longe possível umas das outras. Era uma daquelas regras mudas que não precisa-se expressar verbalmente mas que todos respeitam. Um breve apito, as portas se fecham e o trem põe-se em movimento. Aprendera a observar a vida, gostava de criar histórias e no momento observava como um senhor salvara o mundo de uma epidemia mortal maquinada pelo laboratório onde trabalhava como faxineiro apenas por haver esquecido o frasco de álcool aberto próximo a um equipamento elétrico. Mal imaginava ele enquanto dormia no trem que seu local de trabalho arderia em chamas em alguns minutos. Na estação seguinte enquanto observava a movimentação dentro do vagão e procurava um novo personagem para suas aventuras seus olhos encontraram os dela. Grandes olhos castanhos, profundos, marejados e tristes. Sob eles escondia-se um universo ainda não observado. Ela sentou-se ao seu lado soluçando na tentativa vã de segurar as lágrimas que corriam sorrateiramente pelo canto dos olhos. Ele por sua vez fingia estar concentrado na paisagem da janela, apesar de ser noite e não haver muito o que ver. Em seu interior surgia um desejo crescente de fazer algo a respeito. Mas o que poderia fazer? Esforçava-se para se concentrar na canção que era reproduzida nos seus headphones. Nada feito, aquele desejo tornara-se necessidade, a inquietação era pungente. Olhava para ela ali de cabisbaixa, seus longos cabelos negros cobriam seu rosto com uma cortina. Num impulso perguntou se ela estava bem, era óbvio que ela não estava bem as pessoas não andam por aí chorando à toa. Ela levantou levemente a cabeça sem olhá-lo e respondeu com uma voz rouca e suave que sim. Apesar disso, sua inquietação não passou. Queria olhá-la novamente, por algum motivo gostaria de vê-la sorrir. Tentaria novamente, inspirou brevemente e começou a falar a primeira coisa que veio à cabeça: "-Seria oportuno oferecer-lhe um lenço ou um papel mas infelizmente eu não tenho. Sempre carrego comigo, mas hoje eu esqueci". Que história ridícula, não via um lenço desde os seis anos. Mas pareceu funcionar, ela riu. Ela tentou limpar o rosto com as mãos, abriu o melhor sorriso que conseguiu e estendeu-lhe a mão apresentando-se. Perguntou de onde ele vinha. Ele respondeu que a noite no bar havia acabado cedo e que gostaria de ir para outro. Ela riu e disse que se isso foi um convite seria obrigada a recusar, não estava no clima para isso. Ele também riu, não era essa a intenção fora apenas um comentário. Não retribuiu a pergunta, não queria ser intrometido e ela parecia entender isso. Ela perguntou então sobre o seu signo. Havia começado mal pois ele não acreditava naquelas bobagens. Pensou um tempo em que deveria fazer e resolver responder. Disse Áries e ela comentou que o dela também, ele não sabia se isso era bom.
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Ele perguntou para ela se ela gostava de desenhos, ela disse que sim principalmente os mais bobinhos. "Telletubies?" Ele quis saber. Ela gargalhou, a cada minudo ela parecia menos com a moça chorosa que havia entrado no trem e ele sentia que estava no caminho certo, mas para onde? Por que queria vê-la feliz? Não sabia e não se importava com isso. Ela disse que adorava a Pô. A conversa seguia espontânea e pelos mais diversos assuntos, sentia-se satisfeito por aquilo. Então ela perguntou por que os homens traem, ele não sabia o que responder. Não era uma situação familiar para ele, disse que não sabia e que talvez fosse por que algumas pessoas nunca se contentam com o bom que tem. Não sabia o que estava falando, nunca refletira sobre aquilo.
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Por um momento ela sentiu doer menos aquilo que sentia. A conversa era boba e era tudo o que ela precisava. Se antes sentou ao seu lado por que não queria conversa, agora estava agradecida por ele ter insistido. Queria que aquele momento durasse para sempre ou pelo menos enquanto continuasse sua dor. Ele era diferente dos homens que conhecera, mas todos pareciam ser no começo para depois revelar quem realmente eram. Ele não soube responder sua pergunta sobre traição, disse que não tinha experiência com aquilo, ele poderia dizer o que quisesse mas ainda assim mesmo não sabendo o porquê acreditava nele. Ele contava uma piada enquanto desembarcavam do trem, riram bastante e depois caminharam em silêncio pela plataforma. Esperava que ele se despedisse ali e fosse embora. Mas ele subiu as escadas com ela. Parou logo depois dizendo que ficaria por ali, agradecia a companhia e esperava que ela ficasse bem logo. Ela olhava para seu rosto quadrado, sua barba por fazer, era bem masculino, seus olhos ainda vazios não combinavam com aquela face. Ela agradeceu, apertou sua mão e se foi.
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Ficou lindo!
ResponderExcluirObrigado, Raíra.
ResponderExcluirGostei! Quero uma continuação! QUe bonito, Henrique!
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